A médica Viviane Noah e a Psicóloga Renata Klien estão em um consultório conversando sobre como lidar com o luto

Como lidar com o luto?

Falar sobre a morte é sempre delicado, especialmente, em tempos tão difíceis como o que estamos vivendo por consequência da pandemia de Covid-19. É praticamente impossível dissociar a morte do luto, pois sempre que perdemos um ente querido, vem aquela sensação de vazio, tristeza, desânimo, melancolia e vários outros sentimentos e emoções associados à perda, que muitos de nós já vivenciamos ou certamente iremos vivenciar.

Como lidar com o luto: entenda que é um processo natural

Falar sobre a morte não deveria ser um tabu, por mais dolorido que seja em função das circunstâncias, o trabalho do luto, assim como a morte, são processos naturais e que não devem ser temidos. Se fugimos, “engolimos”, inibimos determinados sentimentos que vêm com a dor da perda e esse luto não trabalhado pode se tornar o que chamamos de adoecimento do processo de luto.  

Saber a diferença entre um luto normal e complicado, e quando há a real necessidade de um acompanhamento especializado, pode ser muito importante para melhorar a qualidade de vida nesses casos.  Para falar sobre esse assunto tão delicado, a Dra. Vivianne Nouh Chaia e a psicóloga Renata Klien, que fazem parte da nossa equipe de Intervenção e Suporte ao Luto, fizeram um vídeo com um bate papo sobre o luto. Assista!  

Transcrição do vídeo 

Renata: Oi, Eu sou Renata Klien, psicóloga. Faço parte da equipe do INBRACER e estou aqui na companhia da minha colega e amiga Vivianne Nouh Chaia. Hoje, a gente traz um assunto que eu acho muito importante e que existe todo um tabu em torno da questão que é a morte. Você não acha, Vivi?

Existe um certo preconceito e uma dificuldade da morte e da tristeza encontrarem um espaço para existir. Inclusive a gente está passando por esse momento da pandemia e nós estamos vivendo toda essa essa questão que gira em torno dos rituais, da falta deles e do quanto isso é importante para a elaboração do processo de luto.

Vivianne: Você comentou em relação à questão da morte. Ela tem a ver com o tabu. Através dos anos, eu acredito, até falando como médica, que a medicina trouxe muita tecnologia, trouxe o prolongamento da vida, mas ela distancia a morte das famílias. Distancia, principalmente, no ambiente de terapia intensiva.

Não é uma crítica em relação à isso, ao contrário, muitas vidas são salvas, mas em contrapartida, algumas doenças não têm mais o tratamento adequado que a gente fala da dignidade no final de vida, na finitude. Então, esse distanciamento dos profissionais, da medicina traz esse tabu.

Renata: Que eu acho que é um distanciamento que vem também da nossa cultura. Se a gente conseguisse levar o assunto morte para dentro da família. Se a gente conseguir  conversar sobre o que a gente quer para o final da vida… Se a gente quer doar os órgãos, ser cremado ou não… Se esses assuntos começarem a ter um espaço dentro da família, você já começa a entender que a morte precisa ser falada. Aliás, a única certeza que a gente tem é que um dia a gente nasce e um dia a gente vai morrer e a gente fala muito pouco desse momento, né?

Vivianne: É porque a morte ela é feia, né? A dor da morte é feia. É claro que não há romantismo. Não há romantização nesse processo do morrer, mas como é uma questão natural, nós poderíamos trazer uma serenidade. Levar uma serenidade para essas famílias. A gente estava conversando anteriormente sobre esse momento de pandemia. Com ela, nós nos aproximamos da morte nesse momento de forma coletiva.

Renata: É verdade.

Vivianne: Mas não só na nossa cidade, no nosso estado e no nosso país. E sim, fora do continente e é mundial. Então, há um medo muito grande. Não sei se você vê nos seus pacientes esse medo agravando a ansiedade, agravando transtornos e episódios depressivos dos pacientes com esse medo da morte. Medo porque você falou também dos rituais. O medo de perder o ente amado e não ter a oportunidade de se despedir.

Renata: O paciente que já está comprometido naquela dor sem conseguir passar pela experiência da despedida, ele fica ainda mais prejudicado. O processo fica prejudicado. Então, eu acho que a gente está falando sobre coisas importantes que a gente deve levar em consideração. Cada vez mais, a gente deve abrir esse tipo de conversa para poder entender que os rituais, o processo são ferramentas importantes para a elaboração do luto.

Vivianne: E o que você sugere aqui na nossa conversa? O que a gente pode sugerir, tanto você quanto eu, para quem está assistindo sobre essa abertura do falar sobre a morte, sobre a perda e sobre a possível contaminação por esse vírus horroroso. É que, às vezes, tem pessoas que têm sintomas leves e outras pessoas vão para uma ventilação mecânica e a gente não sabe qual é o desfecho. Mas o que a gente poderia falar para as pessoas em relação à morte?

Renata: Eu acho que a gente pode sempre incentivar as conversas nas famílias, porque quando você abre espaço, você também proporciona aquele momento para que ocorram dúvidas, reflexões e desejos. Eu acho que esse é o espaço que deve ser aberto para que as pessoas comecem a questionar tudo que envolve a finitude.

Acho que, inclusive, a gente também tem a questão – que depois a gente pode falar em outro momento – mas em relação à participação das crianças também. O que não é dito fica mais difícil. Quanto mais a gente puder abrir espaço para a fala, para você poder se expressar, mais fácil fica para todo mundo passar por essa situação de uma forma saudável, né.

Vivianne: E para as crianças, o fato de não esconder… A gente também tem que ter cuidado na hora de falar com as nossas crianças, mas também orientar os profissionais e os familiares para não falar sobre uma fantasia em que a criança possa ter uma ideia que aquele ente amado, principalmente, o pai, a mãe, irmão ou aquele que ele tem o maior vínculo poderá voltar.

Renata: Mas, Vivi, sabe o que eu estava pensando? O que ocorre? A falta de informação. As pessoas até vão com muito amor…

Vivianne: A intenção é sempre maravilhosa, mas vão com aquele medo também, né?

Renata: Exato. Não sabem o que vão falar para uma criança…Então, as pessoas estão muito pouco informadas. Por quê? Porque não se fala sobre assunto. Elas acham que não falar ficaria melhor…Então, eu acho que abrindo espaço para esse tipo de discussão, as pessoas podem começar a tomar conhecimento e, aí, tudo isso fluir de uma forma melhor.

Vivianne: E aí, a gente fala das famílias, delas conversarem. E se essas famílias não tiverem como iniciar uma conversa, que elas possam procurar apoio junto a profissionais esclarecidos que têm especialização ou que têm estudos na área. Tem muitos livros também que são possíveis. A gente pode deixar na parte escrita do nosso Instagram as sugestões de livros para adultos e crianças também onde essas famílias possam buscar informações para direcionar a conversa com as crianças e as suas famílias também.

É muito doloroso. De qualquer forma, é doloroso o momento e o rompimento do tabu também para essas famílias. Imagina uma pessoa que tem medo da sua morte, da morte da família e precisar abordar esse assunto, porque é necessário…. Então, é uma ruptura também do tabu. Só que lá na frente ela vai se sentir aliviada.

Renata: Com certeza. E a gente quando fala em luto, a gente está falando em vínculo. A gente perde o que a gente tem. Então, a gente tem um vínculo amoroso com alguém que não está mais aí, alguém que morreu. Portanto, a gente pode dizer que é dor e amor.

Por isso, é um processo muito delicado que algumas pessoas vão passar de uma forma saudável e outras, que não tiverem essa mesma facilidade, devem procurar um apoio com a equipe terapêutica – psicólogo e psiquiatra – dependendo do comprometimento. Eu acho que depois a gente pode trazer outros assuntos e, aos pouquinhos, a gente vai abordando esse universo tão difícil que a gente está trazendo hoje que é a morte.  

Caso precise de mais informações ou tenha algum conhecido e/ou familiar passando por um quadro de luto complicado, não deixe de entrar em contato conosco pelo WhatsApp.